Crítica | Com Desalma, Brasil faz as pazes com o Terror

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Kássia Kiss interpreta a bruxa Haia na série "Desalma" (Divulgação/Gshow).

Desde que a plataforma de streamings da Globo foi lançada em 2015, o Globoplay já apostou em duas séries de terror. A primeira se trata de Supermax (2016), uma trama com doses cavalares de ficção científica e terror clichê, com direito a demônios e muita violência. Apesar do alto investimento da Globo, a série de José Alvarenga Jr., Fernando Bonassi e Marçal Aquino decepcionou. Um dos erros foi ter exibido um produto desse gênero na TV aberta em formato semanal. Primeiramente é válido ressaltar que o público que assiste TV aberta não é muito fã do gênero terror, e segundo, o ritmo da série pedia uma exibição diária.

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“Supermax” espantou público da Globo em 2016 (Reprodução/Internet).

Apesar dos percalços, Supermax se mostrou um salto na aposta brasileira no gênero, que em janeiro do ano seguinte foi utilizado pela Record na série Sem Volta, que criou um tipo de pânico na floresta Tupiniquim. Mas voltando à série da Globo, Supermax não foi um inovação, mas foi corajosa e pagou o preço. No seu último episódio no dia 13 de dezembro de 2016, chegou a ficar em quarto lugar na audiência da Grande São Paulo, perdendo até para a Band, tamanha rejeição que sofreu. Mas teve grande repercussão nas redes sociais. A série não é ruim, teve diversos pontos positivos a começar pela direção esmerada de Alvarenga Jr., e pelo roteiro ousado, cuja sinopse é: “Doze ex-criminosos são selecionados para viver a experiência de um reality show nada convencional: três meses de confinamento em um presídio desativado no coração da Floresta Amazônica.”

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Parte do elenco de “Supermax” (Reprodução/Internet).

4 anos depois, passado o trauma e agora com uma força muito maior já que o Globoplay decolou de vez, a Globo aposta novamente no gênero, mas com um apegada quase oposta a arriscada em 2016. Desalma em nada lembra Supermax. Enquanto uma flerta com o terror brutal, repugnante, a outra aposta em um tom mais instigante, sobrenatural e de clima.

Criada por Ana Paula Maia, escritora de best sellers, a mais nova série da maior plataforma de streaming do Brasil representa um avanço colossal nesse gênero pouco explorado por aqui. Sem medo, Desalma acerta no tom do terror, e bebe da fonte de filmes aclamados do gênero, como A Bruxa (2015). O enredo trata de um assassinato ocorrido em 1988 na tradicional festa de Ivana Kupala, no qual a jovem Halyna (Anna Melo), filha da bruxa Haia (Kássia Kiss), é encontrada morta em uma cachoeira. Desde então a festa pagã é banida do calendário da fictícia cidade catarinense de Brígida. 30 anos depois, a cidade decide retomar a tradição, e é aí que eventos estranhos começam a acontecer.

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Anatoli (João Pedro Azevedo) e sua mãe Ignes (Cláudia Abreu), em cena de “Desalma” (Reprodução/Internet).

A série exibe simultaneamente os acontecimentos de 1988 e de 2018, de forma muito clara e sem ser didática. A produção não perde em nada para as melhores produções internacionais. O roteiro não é apelativo para fisgar público como a maioria dos enlatados lançados recentemente em outras plataformas de streaming. É uma narrativa muito bem conduzida, com os arcos de terror muito bem trabalhados. Uma história sem atropelos, que cria um clima de tensão que aumenta a cada episódio. A sensação de marasmo se esgota ao passo que você percebe que por trás daquela “calmaria” existe algo terrível e assustador acontecendo. Não é um terror clichê, desses batidos que já cansaram o público, pois nada nela é gratuito, nem mesmo os sustos. Tudo serve para mergulharmos mais nos dramas e medos de cada personagem.

A fotografia é linda, e a locação perfeita. Parabenizo pela escolha de ambientar a história na serra catarinense, um lugar magnífico do nosso Brasil com uma cultura tão rica e que pouco é explorado no audiovisual, como se o país se resumisse em São Paulo e Rio de Janeiro. Ainda é importante salientar o acerto em abordar a questão dos imigrantes ucranianos que formam várias colônias no Sul do Brasil, e por vezes se sentem isolados do restante do país. Vale destacar ainda o elenco bem afiado, com destaque para Cláudia Abreu interpretando a perturbada Ignes, Kássia Kiss irretocável como a bruxa Haia e a jovem Anna Melo, nome promissor que deu uma graça especial para sua Halyna. Direção competente e de primeira.

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Anna Melo é um dos destaques do elenco de “Desalma” como a doce e misteriosa Halyna (Reprodução/Internet).

Um ponto negativo para mim, e que me incomodou um pouco, foi o excesso de repetição de palavras como o nome da festa “Ivana Kupala”. Outra coisa em relação às falas, é que os diálogos são sempre dentro do Português formal e correto, o que deixa um pouco fora da realidade, mas nada que comprometa a série, são detalhes que devem ser analisados e corrigidos. Alguns atores do elenco jovem dão algumas escorregadas mas estão no tom dos personagens.

Com a segunda temporada já confirmada para 2021, Desalma foi a volta por cima da Globo após o fiasco de Supermax. A série não está sendo um fenômeno de repercussão, mas agradou a direção da emissora e está sendo aclamada pela crítica e também nas redes sociais. Já é perceptível que a série fidelizou um grande público para a próxima temporada que promete! Os ganchos finais da primeira foram espetaculares.

O pós-terror chegou ao Brasil, que através do streaming faz as pazes com o gênero depois de sucessivos fracassos. Que venha a segunda temporada de Desalma.

Nota: 4,5/5

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